
Querido Prof. Rubem,
Hoje é um dia especial.
Algo que, para a maioria dos profissionais
engajados no meio acadêmico seria banal,
teve especial significado para mim nesta manhã.
Tive meu primeiro artigo publicado, e a 'culpa' é sua.
Um presente muito significativo, um alento precioso,
nestes dias de profunda angústia e solidão,
em que estou no meio da escrita de uma dissertação de mestrado e
não preciso dizer mais nada, pois quem já passou por isso sabe o que é.
Exigências, prazos, textos reescritos à exaustão, madrugadas longas,
dias curtos, um calendário que voa em velocidade supersônica,
minha licença acabando, minha inspiração que se foi.
Em meio a isso tudo, uma notícia acolhedora e que me fez desabar
num choro infantil em frente ao computador.
Abro meu e mail e lá está:
"Seu artigo foi aceito e já está disponível em nosso site".E onde entra Rubem Alves nisso?
Bem, quem conhece os seus escritos,
vai reconhecer muito do mestre no '
meu' texto.
Na verdade acho que este, em particular, é muito mais seu.
O senhor é minha inspiração desde 1992 quando chegou até a mim
pelas páginas do livro 'A menina e o pássaro encantado'.
Na época, meus pais estavam se separando
e o conteúdo daquele livro 'para crianças',
me fez entender que era preciso deixar a gaiola 'aberta
para que o pássaro continuasse livre
e compartilhando suas estórias com a menina'.
A partir daí vieram Lili, a porquinha do rabo esticadinho,
Retorno Eterno, Tempus Fugiti, Estórias de quem gosta de ensinar,
Conversas com quem gosta de ensinar,
O país dos dedos gordos, e tantos outros, mais de cinquenta, acho eu.
Fora textos, reportagens e, mais recentemente, sites e web blogs.
Seu estilo teve profunda influência na maneira de me expressar.
Este blog mesmo, posso dizer que traz um pouco do seu intimismo.
A coisa que mais sinto falta na vida,
foi não ter podido ter um contato maior ou mesmo ter sido sua aluna.
Quantas cartas escritas em tempos que não havia internet
e que eu nunca enviei; deveria tê-lo feito.
Meu horror ao descobrir o desdém da academia cuiabana pelo seu legado.
Um dia propus uma monografia de pós-graduação sobre suas obras
e a resposta que obtive foi "e ele tem pelo menos vinte livros escritos"?
O desaforo foi tanto, que na época me dei ao trabalho de contar
e só livros, sem procurar muito, encontrei quarenta e quatro!
(Claro que devolvi o desaforo, senão não seria eu, obviamente...)
Muito do que sou hoje,
veio de sua obra e seu jeito assim meio anjo, meio moleque.
Da sua tranquila sabedoria mineira que nunca buscou impor verdades,
embora tenha sido essa a prática dos seus críticos mais incisivos.
Ensinou-me a rir de mim mesma
e das coisas 'sérias', formalidades de Procusto.
Ainda estou aprendendo.
Alguma parte de mim, atende pelo nome de Rubem.
E eu só queria que de alguma maneira soubesse
o quanto significa em minha vida, não só acadêmica, mas como exemplo.
Para mim, o maior educador no Brasil contemporâneo.
Gostaria que vivesse mais duzentos anos, com saúde e alegria.
Obrigada pela sua inestimável contribuição na vida de tanta gente.
Na minha vida em especial.
Obrigada pela influência que deixou, pelos dedos de prosa tão valiosos.
Se cheguei até aqui, foi por que tive grandes mestres
e o maior deles foi o senhor.
Um grande abraço!
Madalena

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